Anos atrás, recusaria com todo respeito. Na verdade, eu nem notaria, nem me importaria ou me assustaria. Só depois de aceitar minha intuição passei encontrar pessoas com essa mesma forma de loucura, o convite foi um deleite.
O mundo morreu.
Todos nós vivemos a morte dos nossos antepassados. Vivemos um país sem projeto de vida. A gente precisa acreditar em uma vida imaginária, criar soluções da noite pro dia e atuar em papéis que nem sempre concordamos. As condições fazem de brasileiros, artistas de nascença.
Criamos do nada, tudo que da pra ter paz.
Mas todos nós, e também os que vieram antes, estão com suas crianças mortas ou presas em cativeiro. A cura da depressão é coletiva, mas certamente passa por deixar a nossa própria criança em paz. Eu morri para não matar a minha. Há quem morra de desumanidade, copiando a lógica de um sistema narcisista pra si.
Eu quero ser pior que essa morte.
Uso o teatro do Zé para criar a vida artificial que penso ser digna para qualquer pessoa. Me disponho a estar vulnerável em algumas horas fora de casa, correndo risco de vida em ser surpreendida por quem morreu de forma mais humana, assim como eu. Talvez, a depressão acontece porque não conseguimos aceitar o mundo como ele é. Não conseguimos nos adaptar a desumanidade.
O mundo está invertido, então atuo sem máscaras. Sendo eu, só eu. Esse é o convite à minha profundidade. E, para me proteger, fortaleço laços e crio novos quando existe espaço, encontrei lagos no asfalto pra ser meu porto seguro.
Não vou vencer o mundo morto.
Mas depois da morte, a vida,
há vida.
Por isso, acredito em uma vida que só existe na minha intenção. Compartilho uma bondade aguda, da qual todos duvidam — essa é minha drag no rolê. Jogo luz nas pessoas pra descobrir quais cores temos em comum, sempre há alguma frequência que bate.
No caminho, joguei luz na profundidade que me convidou. Vi todas as cores que vibravam na mesma frequência que as minhas. Ainda, vi espaços pra outras cores que nem consigo enxergar. Adoraria conhecer a realidade que ela enxerga.
A porta se fechou antes que eu pudesse chegar perto. Mesmo assim eu gostei dessa breve viagem.
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